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Modelos de assinatura em saúde: a lição da Levels, Function e Hims para o Brasil

Levels, Function Health e Hims construíram negócios de saúde fora das seguradoras — e a pergunta não é se esse modelo chega ao Brasil, mas quem vai chegar primeiro.

Existe uma tendência confortável de tratar modelos de assinatura em saúde como fenômeno norte-americano — produtos do Medicare, dos planos fragmentados e de um consumidor acostumado a gastar do próprio bolso. Essa leitura ignora o óbvio: o Brasil combina uma das maiores lacunas de cobertura em saúde do mundo com uma classe média que já paga assinaturas de streaming, academias, caixinhas de cosméticos e aplicativos de meditação. As condições estruturais estão presentes. O que falta, por ora, é quem organize a oferta de forma coerente.

O que Levels, Function e Hims construíram, de fato

A Levels Health vendeu acesso a monitores contínuos de glicose junto com uma camada de software e coaching. O produto nominal é o sensor; o produto real é a consciência metabólica contínua — um dado que o sistema de saúde convencional só captura em momentos de crise. A Function Health foi mais agressiva: 100 biomarcadores por ano, resultados interpretados, tudo fora do sistema de planos. A proposta é funcionar como um painel de controle do corpo em vez de uma visita anual ao clínico geral.

O Hims e o Hers, por sua vez, escolheram o caminho mais comercial: telehealth para condições comuns e constrangedoras — queda de cabelo, disfunção erétil, saúde mental, controle de peso — com receita e produto entregues em casa. Nenhum dos três depende de seguradora. Os três operam com receita recorrente, margens brutas de produto mais software, e uma relação direta com o consumidor que os planos de saúde tradicionais nunca conseguiram construir.

A lógica financeira por trás do modelo

Planos de saúde são, em essência, veículos de gerenciamento de risco coletivo. Quando funcionam, redistribuem custos. O problema é que esse modelo cria pouco incentivo para que o segurado saudável siga sendo saudável — o plano captura a sinistralidade no agregado, não o comportamento individual. Empresas como a Levels enxergaram exatamente essa brecha: consumidores que não precisam usar o sistema de saúde frequentemente têm menos razões para pagar por cobertura robusta, mas têm apetite por serviços que os ajudem a permanecer assim.

A recorrência de assinatura resolve um problema antigo de unit economics em saúde: a consulta avulsa tem custo de aquisição alto e valor de vida do cliente baixo. Quando o mesmo cliente paga mensalmente por dados, coaching e acesso a profissionais, o LTV muda completamente. Isso atrai capital diferente, permite contratações diferentes e viabiliza investimento em tecnologia que o modelo transacional jamais justificaria.

O que o Brasil tem de diferente — e por que isso importa

O mercado brasileiro de saúde é formalmente dominado pelo SUS e pelos planos privados, mas há uma camada informal enorme de gastos diretos que a maioria das análises subestima. Consultas particulares, exames fora de rede, suplementos, clínicas de estética com viés de wellness — essa economia paralela já existe e movimenta cifras significativas. O consumidor brasileiro já está pagando do próprio bolso por saúde; ele apenas não tem uma oferta estruturada o suficiente para chamar de produto.

A regulação da Anvisa e do CFM cria fricção real, especialmente em telemedicina e na prescrição eletrônica. Mas o arcabouço legal mudou bastante desde 2020, e a telemedicina, que era exceção emergencial, virou norma permanente. A janela regulatória para serviços de monitoramento contínuo ainda é ambígua, o que é simultaneamente um risco e uma vantagem competitiva temporária para quem mover primeiro com assessoria jurídica adequada.

O que traduz para o mercado brasileiro e o que não traduz

O modelo de monitor contínuo de glicose ao estilo Levels enfrenta um desafio de custo no Brasil que vai além do câmbio. Os sensores seguem sendo importados, com tributação relevante, e a cadeia de supply chain local é incipiente. Isso limita o mercado endereçável ao consumidor de alta renda no curto prazo — o que não inviabiliza o negócio, mas define onde ele começa.

O que traduz bem é a lógica do painel de biomarcadores estilo Function Health. O Brasil tem laboratórios com capilaridade nacional, coleta domiciliar funcionando em capitais e uma obsessão crescente com medicina preventiva entre as faixas de renda média e alta. Um produto de assinatura anual que entregue 80 biomarcadores interpretados, com acesso a médico funcional por videochamada, não depende de nenhuma inovação regulatória radical — depende de execução e de marca.

O modelo Hims tem o equivalente mais óbvio no Brasil: clínicas de medicina sexual, tratamento de calvície e saúde mental já existem como negócios físicos. O que falta é a digitalização da jornada, a recorrência e a desburocratização da prescrição. Algumas startups estão começando a preencher esse espaço, mas ainda com escala limitada e posicionamento difuso. O grande erro seria copiar a estética sem copiar a obsessão com unit economics.

Onde o mercado vai se mover primeiro

A saúde corporativa é provavelmente o ponto de entrada mais racional. Empresas com mais de 200 funcionários já pagam planos de saúde caros e têm incentivo financeiro direto para reduzir sinistralidade. Um produto de assinatura de monitoramento preventivo vendido como benefício B2B tem um ciclo de venda previsível, ticket maior e um comprador — o RH — mais sofisticado do que o consumidor individual médio.

O segundo vetor é a medicina de longevidade, que no Brasil ainda carece de uma marca de referência acessível. A Clínica Cleveland e a Mayo Clinic têm programas de executive health que custam dezenas de milhares de dólares. Existe uma demanda reprimida por algo entre o checkup anual do plano de saúde — que é superficial — e o programa de longevidade de alto luxo. Essa faixa do meio, com preço entre R$ 500 e R$ 1.500 por mês, ainda está praticamente vazia.

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