Muitas empresas brasileiras tratam mercado de carbono como assunto de futuro distante — algo para 2030 ou além, que a área de sustentabilidade resolverá quando o regulador der o sinal. Esse cálculo está errado em dois pontos. O SBCE está em implementação ativa, com regulamentação sendo publicada. E o trabalho de base — inventário de emissões auditável, estratégia de redução, posicionamento no mercado voluntário — leva anos para construir com credibilidade. Empresas que começarem quando a conformidade for obrigatória vão começar atrasadas e pagar preço maior por isso.
Como o SBCE foi desenhado
O SBCE foi instituído pela Lei 15.042 de 2024, após mais de uma década de discussões. O sistema segue o modelo cap-and-trade: o regulador define um teto de emissões, distribui ou leiloa licenças (as Cotas Brasileiras de Emissões, CBEs), e permite que empresas que emitem abaixo do limite vendam o excedente para quem emite acima. A lógica é que a redução acontece onde for mais barata — desde que o cap seja suficientemente restritivo.
O cronograma prevê uma fase inicial de monitoramento e reporte sem penalidades, seguida pela operação plena com obrigações de compliance. A cobertura inicial foca em setores de alta emissão: energia elétrica, petróleo e gás, cimento, aço, alumínio, papel e celulose, e transporte aéreo doméstico — juntos responsáveis pela maior parte das emissões industriais do país.
O mercado voluntário que já existe
Antes do SBCE entrar em plena operação, existe um mercado voluntário de carbono que funciona no Brasil há mais de uma década — e que tem características importantes de entender.
No mercado voluntário, empresas compram créditos de projetos certificados para compensar emissões ainda não reduzidas internamente. Os mais comuns são de preservação florestal (REDD+), energia renovável e eficiência energética, certificados por padrões como Verra VCS e Gold Standard. O Brasil tem vantagem comparativa nesse mercado: é um dos maiores geradores de créditos de REDD+ do mundo, com projetos na Amazônia e no Cerrado que atraem compradores internacionais dispostos a pagar prêmios por créditos de alta integridade.
A relação entre mercado voluntário e regulado é um ponto de atenção estratégico. O SBCE prevê que créditos do mercado voluntário — os Créditos de Descarbonização, ou CDRs — possam ser usados para conformidade, dentro de limites. Empresas com posição no mercado voluntário têm um ativo potencialmente utilizável no sistema regulado, mas há diferença significativa de qualidade entre créditos voluntários que vai importar quando os critérios de elegibilidade forem publicados.
O que é preciso ter antes da conformidade
A diferença entre uma empresa preparada e uma empresa não preparada no SBCE não vai se manifestar principalmente na negociação de créditos — vai se manifestar antes disso, na qualidade do inventário de emissões.
O inventário é a base de tudo. Sem saber com precisão quais são as emissões de Escopo 1 e Escopo 2, como se distribuem por instalação e processo e quais são as tendências ao longo do tempo, a empresa não consegue avaliar sua posição no sistema, definir estratégia de redução priorizada nem comprar ou vender créditos com fundamentação sólida. Um inventário produzido para o relatório de sustentabilidade sem metodologia auditável não serve para esse fim.
Os marcos internacionais já existem: o GHG Protocol Corporate Standard define a metodologia de contabilização por escopo, e os setores cobertos terão protocolos específicos com fatores de emissão, perímetro de contabilização e requisitos de verificação independente. Construir um inventário auditável a partir do zero leva de 6 a 18 meses. Empresas que começarem quando a conformidade for exigida vão fazê-lo às pressas, com maior risco de erros metodológicos que afetam diretamente a posição no sistema.
Estratégia de créditos: comprar, vender ou reduzir
A posição estratégica de uma empresa no SBCE depende de dois fatores: sua alocação inicial de CBEs e seu custo marginal de redução de emissões comparado ao preço de mercado dos créditos. Se a empresa consegue reduzir a custo menor do que o preço de mercado, faz sentido investir em redução e vender o excedente. Se o custo de redução é maior, faz sentido comprar créditos. Essa análise precisa ser feita com dados reais de custo de abatimento por processo e instalação, não com estimativas genéricas.
A trajetória do preço de carbono no SBCE ainda tem incerteza significativa. Mercados cap-and-trade maduros como o EU ETS levaram anos para desenvolver liquidez e sinalização de preço confiável — e a experiência internacional mostra que preços iniciais tendem a ser mais baixos do que o necessário, subindo com o aperto progressivo do cap. Empresas que assumem que o preço de carbono permanecerá baixo indefinidamente estão fazendo uma aposta que a história não sustenta.
Como construir capacidade agora
O trabalho de preparação para o SBCE tem três camadas que precisam avançar em paralelo, não sequencialmente.
A camada de dados é a fundação: sistemas de coleta e consolidação de dados de atividade que alimentam o inventário de emissões com qualidade auditável. Isso inclui consumo energético por instalação, produção e processos industriais com fatores de emissão específicos, e transporte de frota própria. Planilhas manuais com dados consolidados anualmente não servem — o SBCE vai exigir reporte periódico com granularidade suficiente para verificação por auditor independente.
A camada analítica é onde a estratégia é construída: custo marginal de abatimento por processo, trajetórias de preço de carbono, opções de redução com retorno positivo mesmo sem o mercado versus opções que dependem da precificação para ser econômicas. Esse trabalho informa o plano de capex com a prioridade correta.
A camada de mercado envolve desenvolver entendimento prático de como o mercado funciona — compradores, vendedores, corretoras, plataformas de negociação — antes de precisar transacionar sob pressão de conformidade. Empresas que chegam ao mercado pela primeira vez com posição deficitária e prazo de compliance se aproximando têm poder de negociação mínimo. Quem chega com posição conhecida e estratégia definida chega com opções.
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